Esse artigo me pegou de surpresa. Apesar da manchete implícita de “as pessoas bonitas arruinaram a internet” ser meio boba, ele me pôs a lembrar de outros tempos.

Na internet de antigamente, ser anônimo era a regra. Você escolhia um nome de usuário e construía uma personalidade para ele. Não era comum mostrar seu rosto. Primeiro porque era trabalhoso. Você precisava de um scanner ou uma câmera digital, que eram caros na época. Segundo, mesmo quando eles se tornaram mais comuns, as pessoas costumavam ser bastante protetoras de sua identidade real.

Você podia experimentar com diferentes subculturas e com a sua própria personalidade. E o mais importante, sua identidade online podia ser bastante efêmera, se você quisesse abandoná-la ou trocar por outra. Ela raramente tinha uma consequência direta em sua pessoa real, a menos que você fizesse algo realmente estúpido.

Você podia cometer erros. Você podia passar vergonha. Você podia ser estranho. E então você podia seguir em frente. Havia espaço para se divertir e explorar. Para ser justo, isso ainda existe, mas é diferente. Não é incomum que os jovens tenham contas alternativas para se relacionarem com grupos específicos, mas antigamente isso era a regra. Utilizar um perfil pseudônimo hoje em dia dá a impressão que você está se escondendo.

Como as coisas, em regal, eram menores, as comunidades se sentiam mais como comunidades. Mesmo quando a maioria dos usuários era anônima, a base limitada de usuários significava que as pessoas se conheciam mais facilmente, o que permitia ter relacionamentos uns com os outros. Isso também significava que a própria comunidade se policiava de maneira mais eficaz. Era mais fácil de acabar com trolls e coisas do tipo.

Eu sei que muitas pessoas ainda sabem o que são fóruns, mas ter vivido a sua época de ouro foi incrível. Voltando para casa e olhava todos os novos posts em cada categoria. Cada hobby tinha um fórum, de tecnologia, carros, de música, etc. (E, eventualmente, vários viraram grupos no Facebook, que são péssimos para indexação e busca. E o que era ruim vai piorar com a migração para o Discord. Esses canais estão prendendo informações dentro de si e dificultando capacidade de encontrar respostas sobre alguns tópicos. Como eles não aparecerem nos mecanismos de pesquisas públicas, significa que você precisa um por um e talvez encontrar algo.)

Quando você tinha um problema muito específico, era possível pesquisar no Google e 99% das vezes algum fórum obscuro apareceria com alguém que teve esse exato problema e fez um post com 50 fotos e como corrigi-lo. (Que, por outro lado, virava outro problema em tempos de internet discada).

Angelfire e Geocities. ROMs e jogos em flash. BBS e IRC. Webrings, homepages bagaceiras, gifs de ‘em construção’ colados por toda parte ao inves de conteúdo, pequenos contadores de visita na parte inferior da página. Era pessoal e doce. Era um espaço para as paixões e obsessões de cada um.

Hoje as plataformas estão muito consolidadas, enclausurando o conteúdo atrás de aplicativos. Outro ponto triste disso é a crise estética. Tanto os portais quanto os usuários convergem para modelos formuláicos. Uma plataforma copia as características da outra. Usuários replicam o mesmo tipo conteúdo. Tudo é reciclado e ninguém parece se incomodar. Não existe mais trabalho para construir, criou-se um processo que se retroalimenta para moldar a experiência online como uma forma de biscoito.

Enfim, eu acho que pouca gente com menos de 30 e mais de 40 consegue entender isso. Eu sinto falta de como o conteúdo era dirigido por pessoas apenas interessadas em um hobby. Antes da crescente dos algorítimos, você encontrava coisas que não precisavam ser populares. Era uma experiência fantástica explorar cada clareira nessa floresta digital.

Quem se lembra do pudim.com.br? E do cara que gostava muito de Peter Pan e construiu uma página na web? Lugares inusitados com energia caótica. A presença online era feita por pessoas ao invés de empresas. Sinto falta encontrar esses recantos da internet. Hoje, se você estiver criando conteúdo legal, você depende de agregadores de conteúdo para ter visibilidade. Por um lado, não é uma coisa ruim, parece ser mais conveniente para o usuário final. Mas também não posso deixar de sentir como se algo estivesse perdido.

Fico pensando na época dos debates em fóruns. Sinto falta dos dias em que cada comentário não era um concurso de popularidade. Eu me lembro de visitar pequenas comunidades, com duas ou três dúzias de usuários ativos. Ter um novo usuário comentando era digno de nota. Você poderia ter conversas longas entre as pessoas. Havia um enorme incentivo para não ser um babaca porque senão ninguém falaria com você, os mods o baniriam, etc.

Estar online hoje em dia é gritar para uma multidão e, ocasionalmente, ter essa multidão gritando de volta para você. As pessoas se limitam à respostas oportunistas, memes reciclados ou trocadilhos ruins. É cada vez mais difícil ter uma conversa séria porque qualquer discordância, mesmo em conversas leves, é recebida com uma avalanche agressões. Toda conversa precisa ter um vencedor e um perdedor bem definidos. É tudo sobre aparentar influência, ser um influenciador e fingir ter a melhor vida. Isso é desanimador.

Por isso eu acho muito precisa a analogia da autora sobre a internet ser o bar que se torna cada vez mais popular até se tornar irreconhecível. O baixo valor de produção da internet era meio que o charme. Parecia tão autêntico, o que tornava as coisas muito mais engraçadas de certa forma. Ao mesmo tempo, não estou romantizando demais o passado. A ‘nova’ internet também é muito impressionante, com conteúdo bem pesquisado que (às vezes) rivaliza com o que está nas mídias tradicionais. Mas eu meio que sinto falta dos velhos tempos, antes da monetização. Agora, sempre que vejo algum engraçado, sempre tenho que analisá-lo sob a ótica do cinismo. Isso são atores? É uma propaganda disfarçada? Isso é uma notícia para gerar para cliques? Acho que perdemos aquele toque caseiro, aquela esquisitice que é tão inerentemente humana, por algo tão desanitizado.

Enfim, isso acabou se transformando em um grande desabafo nostálgico. Eu sei, eu sei: sure grandpa, let’s get you to bed. De qualquer forma, esse artigo foi divertido de ler e me fez lembrar de memórias queridas, que sempre terão um lugar no meu coração.


https://old.reddit.com/r/technology/comments/y5pdcs/i_am_30_years_old_and_i_miss_the_old_internet_the/

I’ve spent a lot of time blaming founders for changing their products at the whims of advertisers, but to any social platform’s credit, the users do indeed do it to themselves.

In our own eternal quests for social validation, we’re out for growth, too! We readily give in to convenient, advertiser-friendly features like Stories, which prioritize broadcasting over simply communicating. We add more and more friends — because it feels good! — until our close friend group has become our audience.

“People want to be a product!” technology writer Rob Horning wrote to me via email. “Being a product is coded as success in our society… What people don’t want is to be exploited or misled — and that is hard to avoid in the context of ad-supported media.” And so, a bizarre symbiosis is formed between platform, user, and advertiser. The apps had changed, but so had users, leaving that precious early social media feeling out in the cold again.

People refuse to believe that they, too, are responsible for the growth of today’s social media