Gente, todo dia alguém reclamando disso. Tem mais reclamação do que gente usando pronome neutro. Efeito Streisand em ação?

Mal se vê pessoas pedindo que usem, raríssimo você encontrar alguém advogando por isso no mundo real - então por que um bando de boomers reclama tanto do assunto? Pensei que estavam cansados do mimimi 🙄

   

Mas, beleza, vamos deixar os argumentos ad hominem de lado para debatermos o mérito do assunto.

Porque eu não dou bola para a discussão

Eu não uso pronomes neutros (elu/elx/el@) pois os acho desnecessários do ponto de vista gramatical, mas não tenho problema com quem faz uso deles.

Pelo que observo, eles geralmente são utilizados em certas bolhas sociais. É normal que cada subsetor da sociedade tenha seu palavreado próprio, ou termos técnicos da sua atuação profissional.

Publicitários têm seus jobs, budgets, calls; boleiros a resenha, perna, rabiscar; gaúchos têm bagual, faceiro, tchê, etc.

Se ofender com a mera existência de vocábulos é tolice.

   

Porque eu acho que isso não é um problema

Para mim, a problematização dos pronomes neutros é mais uma das (muitas) modas americanas copiadas pelo Brasil, e, como a maioria, tende a passar.

Diferentemente do inglês, onde o they pode ser usado como pronome singular neutro, não vejo muito sentido em forçar o gênero neutro na língua portuguesa.

O gênero das palavras é muito mais relevante no sentido morfológico que semântico, pois tem muitas funções que vão além de categorizar em feminino ou masculino (como pendurar a marcação de plural, definir como vai ser o aumentativo, etc.). A inclusão de um pronome neutro nesse sistema acarretaria em mudanças muito mais profundas do que simplesmente alterar um “e” ou “x” no fim das palavras.

De mais a mais, a língua portuguesa já possui diversas ferramentas que podem ser utilizadas para a desgenerificação. Basta mudar a estrutura frasal, usar superlativos sem gênero (“pessoa”, “indivíduo”, “gente”), suprimir pronomes e artigos desnecessários (“Todo mundo esperou até que ela chegasse”), utilizar termos sem gênero (“de” ao invés de “da/do”; “lhe” no lugar de “a/o”), etc.

Por fim, ainda que julguem necessária a existência de um pronome neutro, faz muito mais sentido tornar aceitável na norma culta o uso do “eles” como neutro. Adicionar um novo pronome como o “elu/elx” soa estrangeiro ao português.

Vale lembrar que “ele/eles” são originalmente neutros. Em latim existe o pronome neutro, mas, em português, os pronomes masculinos “elo/elos” (ainda existentes em espanhol como “ello/ellos”) foram revogados.

Feitas essas considerações, é claro que toda língua é viva e capaz de se adaptar através dos tempos. Criar novas palavras, termos, expressões ou até mesmo pronomes não é algo que costuma afetar a compreensão de uma linguagem. É algo que, na verdade, ajuda a melhor contextualizá-la em sua época.

Por exemplo, eu nasci quando k, w e y não eram letras do português. É estranho esperar que nossa língua não possa mudar, mesmo em questões gramaticais.

   

O que eu acho que vai acontecer

Eu acho desnecessário incluir o gênero neutro na língua portuguesa. Nosso idioma já dispõe de ferramentas para solucionar essa questão.

Para os “puristas linguísticos”, os que são veementemente contra a adoção de pronomes neutros, basta utilizar a linguagem neutra que o vernáculo já tem a dispor. Todas partes vão sair satisfeitas.

Por outro lado, também não vejo problemas com quem prefira usar pronomes neutros. O idioma informal é bem permissivo com várias impropriedades gramaticais cometidas por sua população.

Erros de conjugação verbal (como, no modo imperativo, entre tu e você), erros de concordância nominal (“menas”) e erros de conjugação ocorrem há décadas no português informal sem que alterem as regras gramaticais.

Na prática, esses deslizes costumam carregar um estigma social pejorativo (até vexatório) em certas camadas sociais; em outras, passam completamente despercebidos. Cabe ao interlocutor avaliar a repercussão dessa inovação linguística que pretende utilizar na situação em que se encontra.

Acho que, mesmo que pronomes neutros venham a ser adotados por uma parte substancial da sociedade, acho difícil que encontrem espaço no léxico, pois seria necessária uma reforma substancial para acomodá-los. Mas, também, se eventualmente oficializarem um pronome a mais, ninguém vai perder pedaço.

   

A regra áurea sempre prevalesce

Independentemente de argumentos técnicos, isso é uma questão que deve ser resolvida pelo bom senso.

Muito provavelmente o pronome que a pessoa prefere não é algo que vai melhorar ou piorar sua vida. Existem problemas maiores nessa selva chamada Brasil do que pessoas usando pronome neutro.

Se alguém me diz que se identifica em algum espectro do gênero neutro, eu não tenho problema nenhum em usar o pronome preferido da pessoa para respeitá-la. E você também não deveria.

Tenha empatia, não seja cuzão.